Terça-feira, Dezembro 7, 2021
Atualidade Desportiva Topo da Semana

Opinião pública e uma garrafa de lixívia

Dia seguinte a uma eliminação (precoce, supostamente). Há quem não ligue, há quem afogue as mágoas e há quem recupere das mágoas que afogou no dia anterior. Honestamente faço todas ao mesmo tempo. Porém, tenho um ritual um pouco mais dark. Gosto de ver todas as notícias possíveis, só para ver as várias opiniões de (supostamente) especialistas e termino com a cereja em cima do bolo, a ver programas de opinião pública. Cada um com a sua, e como sou fã de humor, refugio-me nestes programas…Porquê? Gosto de me rir e ver a falta de noção da opinião pública e, por vezes, surpreender-me (pela positiva) com certas opiniões.

Ricky Gervais tem uma passagem num espetáculo em que diz que não se deve pedir a opinião ao público em geral porque nas embalagens de lixívia ainda temos avisos enormes a dizer “NÃO INGERIR”. Diz o humorista que se quiserem a opinião pública, devem retirar esses avisos, esperar dois anos, e aí sim pedir a opinião do público em geral. É humor, atenção, mas a base não está assim tão longe da verdade.

Caímos pela primeira vez nos oitavos de final e, talvez, uma das melhores gerações da seleção nacional teve o pior resultado de sempre. Dá que pensar, mas às vezes a análise retrospetiva destes resultados não deve ter apenas por base os jogadores ou equipa técnica, como fazem os “especialistas” da opinião pública. A satisfação com um resultado é a gestão de expectativas e, todos comigo incluído, metemos as expetativas bem lá em cima, e aí começa o problema.

Portugal tinha todas as hipóteses de chegar à final? Sim. Temos dos melhores jogadores do mundo e uma equipa técnica excelente? Sim. Temos das melhores equipas na competição? Não.

Há que ter noção do que temos em mãos e achar que temos das melhores equipas do Euro é apenas ter um pensamento megalómano e ser, no mínimo, extremamente presunçoso.

Ter dos melhores do mundo, com uma capacidade de sofrimento enorme não é suficiente. Basta olhar para Alemanha e França para me começar a sentir muito pequeno. Especialmente a Alemanha, que soube em tempo certo aproveitar o excelente trabalho de Guardiola no Bayern (à semelhança da Espanha quando o mesmo estava em Barcelona), impôs o mesmo sistema de jogo e foi evoluindo ao longo do tempo, rodando os jogadores e mantendo a ideia base.  Isto sim, é uma equipa que mete respeito. Portugal fez o mesmo e por duas vezes aproveitou jogadores de equipas “feitas”, no caso de 2004 com o Porto e em 2016 com o Sporting e, em duas tentativas ganhámos uma. A Alemanha pode nem chegar muito longe neste Euro porque no mata mata (saudades Felipão) é sempre preciso uma ponta de sorte, que também nos faltou.

A nossa sorte, foi o Cristiano ter-se lesionado na final em Paris, juntando todos os outros ainda mais. A nossa sorte é o Cristiano ser português e ter ajudado ao longo do tempo a desenvolver a federação e, consequentemente, ter dado meios à mesma para podermos ter tanta qualidade individual.

Dizia uma especialista da opinião pública que Cristiano está acabado e que deveria sair. “Quem é que ele pensa que é? Acha que tem um estatuto acima dos outros?!”

Bem, no fundo ele é só um dos dois jogadores que mudou o futebol a nível mundial e sim, se o Cristiano quiser entrar em campo com as botas trocadas, ele pode. E sinal de que este estatuto existe realmente é este. Por mais recordes e alegrias que nos traga, vai ser sempre o mais criticado. E isso também é (ou deveria de ser) um recorde.

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